domingo, 5 de outubro de 2014

O PACTO COM ADÃO


                                  O Pacto com Adão:
Uma Breve Análise Histórica
Rev. Angus Stewart
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto

As igrejas Reformadas ensinam uma relação pactual entre o Adão pré-queda e o
Deus Triúno. Neste artigo, analisaremos as visões de vários teólogos, especialmente João
Calvino, culminando na obra de Herman Hoeksema, que identificou o pacto, incluindo o
pacto com Adão, como comunhão entre o Deus vivo e seu filho [Adão], a quem criou à
sua própria imagem.

1. Existe um pacto com Adão?

A igreja cristã tem falado da relação entre Deus e Adão antes da queda em termos
do pacto no mínimo desde Agostinho (354-430).2 A teologia Reformada desenvolveu essa
verdade. Estudiosos têm debatido, contudo, se Calvino (1509-1564) sustentou um pacto
pré-queda com Adão.
Lutero (1483-1546) e muitos teólogos Reformados viram corretamente uma
referência ao pacto de Deus com Adão em Oséias 6:7.3 Do seu comentário sobre Oséias
6:7, é claro que Calvino estava ciente que alguns em seus dias entendiam esses versículos
dessa forma: “Outros explicam as palavras assim: ‘Eles transgrediram o pacto como
Adão’.” Contudo, Calvino chama essa interpretação de “sem imaginação”, “fraca” e
“insípida”; e assim, “não paro para refutar esse comentário”.
Estudiosos de Calvino têm encontrado somente uma passagem na qual Calvino
fala explicitamente do pacto de Deus com o Adão pré-queda. Em suas Institutas da Religião
Cristã, ele escreve dos “pactos” (plural) com Adão e Noé, e seus respectivos sacramentos
ou sinais:
Do primeiro gênero são exemplos, como quando a Adão e Eva ele deu a
árvore da vida por penhor da imortalidade, para que confiadamente a
propusessem a si, por quanto tempo comessem de seu fruto [Gn 2.9; 3.22].
E quando estabeleceu, a Noé e a sua posteridade, o arco celeste por
testemunho de que depois disso não haveria de destruir a terra com um
dilúvio [Gn 9.13-16]. Adão e Noé tiveram esses elementos por sacramentos.
Não que a árvore lhes provesse a imortalidade, que por si só não podia dar,
1 E-mail para contato: felipe@monergismo.com. Traduzido em outubro/2007.
2 Peter A. Lillback cita a Cidade de Deus 16.27 e Dos bens do Matrimônio 2.11.24 de Agostinho (The Binding of God:
Calvin’s Role in the Development of Covenant Theology [Baker: Grand Rapids, 2001], pp. 41-45).
3 Cf. B. B. Warfield, “Hosea VI.7: Adam or Man?” in Selected Shorter Writings, vol. 1 (USA: P & R, 1970), pp. 116-
129.

nem o arco-íris, que é apenas a reverberação da radiação solar nas nuvens
opostas, seria eficaz em conter as águas, mas porque tinham a marca
esculpida pela Palavra de Deus a fim de que fossem provas e selos de seus
pactos. (Institutas 4.14.18). 4
Calvino não chama esse pacto pré-queda de “pacto de obras”, “pacto da criação”
ou “pacto da natureza”, termos usados por Zacharias Ursinus (1534-1583).5 A frase
“pacto com Adão” se encaixaria muito bem com a citação acima do reformador de
Genebra.

2. O Adão caído poderia obter vida eterna e celestial?

Calvino cria que “o primeiro homem teria passado para uma vida melhor se
permanecesse reto” (Com. sobre Gn. 3:19). Por uma vida “melhor”, ele quer dizer, mais
especificamente, “vida eterna” (Institutas 2.1.4) e “vida celestial”, pois “ele teria passado
para o céu sem a morte” (Com. sobre Gn. 2:16-17).
Calvino opina: “Nesta integridade, o homem usufruía de livre-arbítrio, mercê do
qual, caso quisesse, poderia alcançar a vida eterna”. Umas poucas linhas antes escreve:
“Portanto, Adão podia manter-se, se o quisesse, visto que não caiu senão de sua própria
vontade” (Institutas 1.15.8). Não temos querela com a declaração que Adão teria se
mantido no caminho da obediência. Mas Calvino não provou, nem qualquer outra pessoa,
que a Escritura ensina que Adão teria recebido “vida eterna e celestial”.
Comentando sobre “e o homem foi feito alma vivente”, Calvino escreve:
Paulo faz uma antítese entre esta alma vivente e o espírito vivificante que
Cristo confere aos fiéis (1Co. 15:45), por nenhum outro propósito que não
nos ensinar que o estado do homem não foi aperfeiçoado na pessoa de
Adão; mas é um benefício peculiar conferido por Cristo, que podemos ser
renovados para uma vida que é celestial, enquanto antes da queda de Adão, a
vida do homem era apenas terrena, visto que ela não tinha nenhuma
constância firme e estabelecida (Com. sobre Gn. 2:7).
O mínimo que se pode dizer é que 1 Coríntios 15:45 (e as observações acima de
Calvino sobre a passagem) não se encaixa fácil com a noção que o Adão pré-queda
poderia ter alcançado a vida eterna e celestial mediante o caminho da obediência, tanto
para ele como para, por implicação, os seus descendentes.
1 Coríntios 15:45-49 traça um contraste entre o primeiro Adão e o “último” ou
“segundo” Adão, Jesus Cristo. Primeiro, Cristo é “o Senhor… do céu”, enquanto Adão é
meramente “da terra,… terreno” (1Co. 15:47), um “boneco de barro”, como Calvino
coloca (Com. sobre Gn. 2:7). Segundo, Adão é “natural”; Cristo é “espiritual” (1Co.
4 “O termo ‘sacramento’”, nesse contexto, explica Calvino, “abraça, de modo geral, a todos os sinais que Deus, em todos
os tempos, outorgou aos homens, para que mais certos e seguros os tornasse quanto à veracidade de suas promessas”.
Nessa categoria ampla, Calvino inclui a lã de Gideão e o retroceder em dez linhas a sombra do relógio de Ezequias.
Assim, Calvino não está se referindo à arvore da vida como se ela fosse equivalente ao batismo ou Ceia do Senhor.
5 O Catecismo Maior de Westminster Q. & A. 20 também fala de um “pacto da vida” com Adão.

15:46). Terceiro, enquanto “Adão foi feito uma alma vivente; o último Adão [foi feito] em
espírito vivificante” (1Co. 15:45). O último aconteceu através da encarnação, morte,
ressurreição e ascensão de Cristo. Assim, se foi exigido a encarnação, crucifixão e
ascensão do “Senhor dos céus” “espiritual” – “um espírito vivificante!” – para transmitir
vida eterna e celestial ao eleito, como poderia o Adão “terreno” e “natural”, que era
meramente “uma alma vivente”, alguma vez ganhar vida eterna e celestial, e comunicá-la à
sua posteridade?
Embora muitos Presbiterianos e Reformados reconheçam que Adão poderia ter
adquirido a vida eterna, os Símbolos de Westminster não especificam isso na verdade: “O
primeiro pacto feito com o homem era um pacto de obras; nesse pacto foi a vida
prometida a Adão e nele à sua posteridade, sob a condição de perfeita obediência
pessoal” (Confissão de Westminster 7.2).
Thomas Goodwin (1600-1680), um Puritano inglês e proeminente delegado da
Assembléia de Westminster, faz um ataque prolongado sobre a idéia de Adão ganhando
vida eterna e celestial por sua perseverança, na parte 2 do seu livro Of the Creatures, and the
Condition of their State by Creation. Ele apela a 1 Coríntios 15:45 e seu contexto muitas
vezes.6 Em suas obra, Of Christ the Mediator, Goodwin escreve:
Adão não poderia conseguir uma condição mais nobre, nem alguma posição
maior do que aquela na qual foi criado poderia ser trazida por suas obras,
nem mesmo por todas elas. Fazê-lo estava ultra suam sphaerum, acima de sua
esfera; ele nunca conseguiria isso. Como, por exemplo, não poderia ter
alcançado aquele estado no céu que os anjos desfrutam. O que Cristo diz?
“Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei:
Somos servos inúteis” (Lucas 17:10). Isso ele não poderia fazer, não mais
que outras criaturas guardando aquelas suas ordenanças podem merecer ser
“transladadas para a liberdade gloriosa” que aguardam, e que haverá no
último dia. A lua, embora mantenha todos os seus movimentos
estabelecidos por Deus tão regularmente, todavia, não pode por causa disso
alcançar a luz do sol como nova recompensa. E assim, tampouco pode
alguma criatura de si mesma, por toda a sua retidão, obter em justiça uma
condição maior para si. E, portanto, os anjos, por toda a sua graça, não
merecem hoje uma condição melhor do que aquela na qual foram criados.7
Nem é a idéia que o Adão não-caído poderia ter ganhado vida eterna distintamente
Reformada, pois, como Goodwin aponta, os Católicos Romanos também sustentam
isso.8
Embora Calvino (erroneamente) sustente que Adão poderia ter obtido o céu, ele
(corretamente) rejeita toda noção de Adão merecendo isso diante de Deus. Peter Lillback
6 Thomas Goodwin, The Works of Thomas Goodwin (USA: Tanski Publications, 1996), vol. 7, pp. 36, 37, 48, 49-50, 62,
70, 73, 76-91 etc.
7 Goodwin, Works, vol. 5, pp. 82-83.
8 Goodwin, Works, vol. 7, p. 57.

escreve: “A teologia de Calvino não permite nenhum mérito no contexto pré-queda”.9
Ele explica:
A rejeição do mérito por Calvino no contexto pré-queda, é particularmente
motivada por um desejo de refutar a conexão de mérito e justificação do
pecador, feita pelos teólogos Católicos Romanos. Mas sua antipatia ao
mérito é mais profunda que isso. Para Calvino, nenhuma criatura de Deus
[incluindo o Adão pré-queda e os anjos eleitos], embora perfeita, pode
merecer algo de Deus o Criador.10
Lillback cita o comentário de Calvino sobre Romanos 11:35:
Paulo não somente conclui que Deus não nos deve nada, por causa de nossa
natureza corrompida e pecaminosa; mas ele nega que se o homem fosse
perfeito, poderia trazer algo diante de Deus, pelo qual ganharia seu favor;
pois tão longo começa a existir, ele já está tão endividado para com seu
Criador pelo direito de criação, que não possui nada para apresentar.
O ódio mortal de Lutero pelo mérito da criatura em todas as suas formas é bem
conhecido. Outros teólogos Reformados, tais como Thomas Goodwin e o suiço Daniel
Wyttenbach (1706-1779), também rejeitaram a idéia de Adão merecendo algo de Deus,
mesmo se fosse ex pacto (procedente do pacto).11

3. O pacto com Adão era um contrato ou um laço?
Peter Mastricht (1630-1706) fala por muitos teólogos Reformados e Presbiterianos:
“toda a essência do pacto de obras está contida na primeira publicação dele [em Gênesis
2:17].”12 Esse pacto de obras inclui uma “condição” (não comer da árvore do
conhecimento do bem e do mal), uma “penalidade” por comer (morte) e uma
“promessa” (vida eterna e celestial). Em seu comentário sobre Gênesis 2:16-17 e em suas
Institutas (2.1.4), Calvino usa palavras tais como “teste”, “ameaça” e “promessa”, embora
não apresente a teologia esquematizada de muitos teólogos posteriores.
Contudo, não somente não existe nenhuma promessa de vida eterna em Gênesis
2:17, mas esse sistema também apresenta o pacto pré-queda como meramente um meio
para um fim. Mas a Bíblia ensina que o pacto é eterno e o fim dos tratamentos de Deus
com o seu povo (Ap. 21:3), e não meramente um meio. Além do mais, se “toda a essência
do pacto de obras” está contida em Gênesis 2:17, então houve um tempo, após a criação
de Adão e antes de Deus proferir o mandamento proibitório, no qual ele não estava em
pacto com Deus! Uma existência “sem pacto” para o Adão pré-queda, mesmo por
um curto período de tempo, é impensável!
9 Lillback, Op. cit., p. 299.
10 Ibid., p. 298.
11 Citado em Heinrich Heppe, Reformed Dogmatics (Grand Rapids: Baker, 1978), p. 296; Goodwin, Works, vol. 7, pp.
23, 29, 49.
12 Citado em Heppe, Op. cit., p. 290.

O pacto com Adão foi um laço de comunhão entre o Deus Triúno e Todopoderoso
e Adão, seu amigo-servo pactual, a quem criou à sua própria imagem. Assim,
como Calvino observa: “Na própria ordem da criação, a eterna solicitude de Deus para
com o homem é evidente, pois ele forneceu ao mundo todas as coisas necessárias” para o
homem (Com. sobre Gn. 1:26). Deus deu a Adão um “lar” no “Paraíso”, que Calvino
mais tarde descreve como “um lugar que ele tinha especialmente embelezado com cada
variedade de deleites, com frutos abundantes, e com todos os outros dons mais
excelentes… do qual gozo podemos inferir a benevolência paternal de Deus” (Com.
sobre Gn. 2:8). Assim, Adão era “em cada aspecto, feliz”, pois vivia como um recipiente
da “liberalidade” divina (Com. sobre Gn. 2:16). Em sua bondade, Deus deu a Adão uma
esposa com a quem viveu na “mais doce harmonia” e com quem desfrutou “uma relação
santa, bem como amiga e pacífica” como a “ajudadora inseparável de sua vida” (Com.
sobre Gn. 2:18).
Herman Hoeksema desenvolveu a verdade da relação pactual entre o Deus criador
e sua criação, o homem. Ele trabalhou com os dados bíblicos do pacto como andando,
habitando e tendo amizade com Deus, e construiu sobre idéias encontradas na tradição
Reformada, especialmente em seu tratamento da bendita comunhão que Adão desfrutava
com Deus no Jardim do Éden. Hoeksema escreve:
Desde o primeiro momento de sua existência… e em virtude de ser criado à
imagem de Deus, Adão permaneceu numa relação pactual com Deus e
estava consciente dessa comunhão e amizade viva… Ele conhecia a Deus e
O amava, e estava ciente do amor de Deus por ele. Ele desfrutava do favor
de Deus. Recebia a Palavra de Deus, andava com Deus e falava com Ele; e
habitou na casa de Deus no primeiro paraíso.13
A formulação de Hoeksema do pacto (tanto antes como depois da queda) como
um laço gracioso de amizade explica o registro bíblico, exclui todo mérito humano e
preserva a soberania absoluta de Deus.
Fonte: http://www.cprf.co.uk/
13 Herman Hoeksema, Reformed Dogmatics (Grand Rapids: RFPA, 1966), p. 222.

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